Não. Querer seria apenas o primeiro e mais simples e fácil passo até o poder. O poder… Disse-se da liberdade que é algo difícil de explicar mas que todos sentimos quando diante dela. Sabemos bem o que é, mas não se consegue explicar com facilidade. À algumas outras coisas, parece-me, poder-se-ia dizer o mesmo, isto é, que são sentimentos, sensações, situações, percepções que não são facilmente traduzíveis por palavras e nem redutíveis à conceitos. Pois é, com o poder é um pouco assim. Difícil descrever bem em que ele consiste, pois ele se manifesta de diversas maneiras, sendo que, algumas delas, subliminares ou imperceptíveis. Caso se proceda à um exercício de conscienscialização quando diante de uma situação-relação de poder entre pessoas e/ou grupos, quase sempre, é possível identifica-la. E como se dá, como se constrói esse empoderamento? Bem, há artificializações de situação de poder e existem situações de poder natural-natural (a força) e natural-construída (carisma, inteligência etc.). Foucault nos falou das “micro-relações de poder”, que seriam aquelas que se desenvolvem no bojo de toda relação humana e social. Há sempre relação de poder, relações estas que podem ser legítimas ou ilegítimas. Mas aqui não quero aprofundar isso. Me interessa mais tratar das artificializações do poder. Como é isso? É quando se busca depositar em uma pessoa ou grupo os elementos necessários para a concessão do status de inalcançabilidade (próprio do poder – e necessário à ele). Isso acontece de duas formas: mitos e ritos. São duas espécies de um mesmo gênero: a narrativa. É isso mesmo: o poder é uma construção narrativa. É uma história (bem) contada cujos argumentos estão bem concatenados e fazendo muito sentido, buscando justificar-legitimar aquele status de poder. Essa história bem contada é a narrativa-mito. Depois de contada essa história, tendo muitos e muitos depositado confiança nela – consciente ou inconscientemente – formando a massa legitimadora da narrativa, falta algo a mais para reforçar e fazer com que se sedimente o poder, protegendo-o, com o seu encastelamento e consequente distanciamento. É aí que entra a narrativa-rito: um conjunto de atos simbólicos que comunicam uma mensagem de diferenciação entre os que assistem (bestializados?) e participam, passivamente, da ritualística. Estes ritos vão desde eleições, posses, coroações, desfiles, juramentos até a necessidade de se ultrapassar várias secretárias e secretários, além de ajudantes de ordem, oficiais de gabinete etc., para se acessar o poder personalizado em alguém. Tão maior será a intimidação a se desdobrar em poder do outro quão maior for, por exemplo, o número de pessoas que estão entre a “assistência” e o inquilino do Palácio; assim como tão maior será o poder, quão mais pomposas forem as cerimônias e ritualísticas que simbolizam o empoderamento. Pois bem, parece importante deixar claro que com estas considerações não faço juízo de valor quanto às narrativas de poder e sua eventual necessidade. Procuro fazer, apenas, uma constatação. Como se nota, não basta querer para poder. É preciso narrar.

One Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *