O melhor vinho do mundo

O melhor vinho do mundo

@ Por Alcimor, Cultura, Vinhos

O melhor vinho do mundo é aquele que preenche o nosso momento e nos proporciona um prazer tal na circunstância na qual ele é tomado que não nos deixa desejoso de nenhum outro. Simples assim. Se estou tomando, por exemplo, um “simples” vinho verde português, um Quinta de Curvos Superior – de 8 euros a garrafa – na piscina, acompanhando frutos do mar e rodeado de amigos conversando e rindo, ele é o melhor vinho do mundo para aquele momento. Se não me faz falta estar bebendo um Ramonet Bienvenue Batart Montrachet (um sensacional branco da Terra Santa do vinho, a Borgonha) ao custo de meros 2.000 reais a garrafa, o Quinta de Curvos é o melhor vinho do mundo para o meu momento porque preencheu o espaço do meu prazer sem me fazer ter saudades do Montrachet. Isso não quer dizer que o melhor vinho será sempre aquele que se está a tomar agora (num paralelo barato com aquela máxima segunda a qual a pior dor que se pode sentir é aquela do momento). Não! Não são poucas as ocasiões em que estamos a beber um vinho e com saudades de um outro – o que só acontece porque o primeiro não cumpriu a sua função de preencher, a contento, nosso espaço espiritual dedicado à Baco. Ontem mesmo não tomei “o melhor vinho do mundo”: bebi um (só) bom Saint Emilion 2010 – não podem pôr a culpa na safra, já que 10 é sensacional para Bordeaux! -, o Chateau d´Arthus. Senti uma grande saudade de um vinho de preço equivalente e daquela mesma região – só assim para fazer uma comparação justa! – o Chateau Laforge. Com essas considerações eu concluo que não se pode falar em “O” melhor vinho do mundo. Isso não existe por inúmeras razões: a subjetividade do gosto; a incomparabilidade entre vinhos de regiões, uvas e preços distintos etc.. Os melhores vinhos do mundo são infinitos.

Vinhajando

Vinhajando

@ Por Alcimor, Cultura, Filosofia, Vinhos

Em um outro texto tratei da viagem no tempo que se oculta por detrás de toda viagem no espaço. Pois nesse texto tratarei da viagem no espaço oculta por detrás de cada gole de vinho. Sendo menos reducionista, talvez: viagem pressuposta à experiência decorrente da ritualística do tomar vinho. No rótulo um apertado resumo do roteiro da viagem; na rolha indícios da qualidade da experiência sensorial e cultural que nos aguarda; na cor o contato visual com a paisagem na qual seremos desafiados pelas idiossincrasias do lugar-terroir; no aroma o potencial de acesso imediato às técnicas utilizadas na produção, ao tipo de solo daquele destino de nossa viagem, à história daquele povo que fez e faz o vinho assim ou assado por conta disso ou daquilo e à peculiaridade daquele, ainda mais específico, lugar-terroir (a propriedade e o produtor); no sabor o ápice da experiência, com a confirmação, positiva ou negativa, das projeções que se iniciavam mais genericamente no roteiro constante do rótulo e que se afunilavam até o aroma. Bem, viajar sozinho é reduzir à uma fração mínima o potencial da experiência e, como viagem que é, viajar no vinho é sempre melhor quando se a realiza em grupo, compartilhando os momentos com uma ou mais pessoas. Boa Vinhagem!